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  • Foto do escritorRita Coitinho

Último olhar na estação




Cécile sorriu ao provar o café e as madeleines. Talvez o cheiro do doce, que a fazia recordar de tia Hughette e o aroma do café forte, tão ao gosto da avó, a ajudassem a sair daquele quinto parágrafo. As memórias amargas da guerra precisavam ser compartilhadas, ganhar corpo, virar texto.

Olhando em volta, reparou na mesa à sua frente, onde sentavam-se um senhor idoso e uma menina de grandes olhos verdes e chapéu de feltro, que devia ter uns onze ou doze anos. Helène era assim na última vez que a viu. Usava uma capa amarela e um chapéu de feltro marrom, de aba curta, arrematado com uma flor do mesmo tecido. Tinha os cabelos lisos, muito louros, com franja. O homem não se parecia muito com o seu avô, a não ser pela ternura com que chamava a neta a escolher o que desejava no menu e pelo inseparável chapéu de feltro.

Deixou-se hipnotizar pela cena da mesa ao lado enquanto bebia o café. Estava muito quente, apoiou a xícara no pires. O garçom trouxe uma taça de vinho para o avô e anotou o pedido da menina, que sorria. Visualizou seu avô sentado no sofá, ouvido colado no rádio, a taça de vinho tinto na mesinha lateral. Naquele verão de 1940 o rádio parecia trazer apenas más notícias, a julgar pelas rugas na testa do avô e pelo nervosismo da avó, que parecia varrer a casa com fúria. Ouviu-a soltar impropérios.

— Petáin! Putain! — Então a avó sabia dizer coisas assim?

A menina da mesa ao lado recebeu com contentamento o refrigerante e um copo de vidro onde o garçom serviu-lhe metade da bebida. Cécile observou o interesse da menina pelas bolhas de gás em meio ao líquido amarelo claro. Cécile não conseguia entender o que conversavam, suas vozes misturavam-se às outras dos clientes do café, ao barulho de louça e talheres e à agitação dos garçons e das garçonetes que iam e vinham com os pedidos. Enquanto olhava a menina, mergulhou novamente naquele fatídico ano de 1940. Dezenove anos... como seria Helène se estivesse aqui? Poderia ser mãe de uma menina como esta. Talvez estivessem juntas no café. Seria, sem dúvida, uma bela mulher.

Mordeu a madeleine e sorveu um gole do café. Ela bebia café na cozinha da casa dos avós quando notou o alvoroço no quintal e distinguiu a voz dos pais, que saudavam o casal idoso e recebiam o abraço de Helène, agitada pela chegada inesperada. Os quatro adultos conversavam com frases entrecortadas que denunciavam que as coisas não iam bem. Algo de grave ocorrera, pois este não era o combinado. Elas voltariam de trem, no final das férias de verão. Por que os pais apareceram sem aviso? Cécile foi à janela saudá-los. O olhar cinzento da mãe denunciava que algo de muito ruim acontecera. A esperança de voltar mais cedo a Paris para estar com suas companheiras do liceu, Bertha e Suzànne, durara apenas o tempo transcorrido entre a chegada dos pais e aquele olhar trocado pela janela.

A menina da mesa ao lado gargalhou. Ao que parece, o avô lhe contava alguma história muito boa. Cécile pôde distinguir o riso da menina em meio ao barulho do café. Helène também ria alto assim e gostava muito de histórias. Mas as histórias do avô Gérard nem sempre eram engraçadas. Havia muitas sobre o front de 1915, contadas com a devida omissão das partes mais fortes. Mas eram suficientes para impingir-lhes o horror à guerra. Cécile, aos 16 anos, sabia que outra guerra se aproximava.

Barulho de pratos e talheres no café levaram-na de volta à mesa de jantar daquele fim de tarde sufocante do mês de julho na Provence. Comiam em silencio. A tensão enrijecia o ar. Já era quase possível cortá-lo com uma faca. Cécile decidiu perguntar.

— O que está acontecendo? Por que vieram tão cedo?

— É complicado, Cécile... — começou o pai.

— Ela já tem 16 anos, Luc, não podemos tratá-la como uma criança. — Disse a mãe.

— Sim, mas está Helène à mesa, Mimi...

— Também não sou mais criança, tenho 12 anos!

A avó esboçou um sorriso. O avô pôs-se a tossir, nervoso.

— Certo. É muito complicado... os alemães tomaram Paris. Não podemos voltar. Pétain é o novo chefe de estado e aqui no Sul talvez seja mais seguro, em razão desse tratado vergonhoso.

­— Mas...e o liceu?

— Não podemos voltar a Paris, Cécile, não podemos... je suis désolé...

Recordou-se do choro de todos, menos do pai e do avô. Luc mantinha-se impassível, como se pudesse, assim, evitar que a desgraça caísse sobre ele. O avô Gérard estava acostumado às asperezas da guerra. Mas seu olhar era de dor.

— Malditos alemães. Maldito Pétain! — Trovejou.

O avô da mesa ao lado pagou a conta e levantou-se, seguido pela neta. Na porta do café a menina beijou o rosto de uma mulher de uns trinta e poucos anos. Saíram os três caminhando pela calçada e Cécile perdeu-os de vista. O café estava frio, merd! Pediu um conhaque e abriu novamente o caderno. Por que não era capaz de transferir as lembranças para o papel?

A menina que estava ali até aquela hora vestia-se de um jeito muito familiar. Exceto pela cor, era a mesma vestimenta de Helène naquela estação de trem, mesmo corte de cabelo, possivelmente a mesma altura. Era como rever a irmã.

Cécile pagou a conta e saiu. Enquanto caminhava ao acaso, acendeu um gauloise e procurou, com força, reconstruir em sua memória o rosto do pai. Curioso como apenas deixava de olhar o retrato, já meio apagado, esquecia-se da fisionomia de todos, menos de Helène. Da mãe, recordava-se bem dos olhos, e da expressão retorcida, que foi a última que viu, naquela madrugada na estação de trem. Do pai ficaram-lhe marcados a voz e as costas, muito eretas.

Dizem que aquelas costas nunca se curvaram. Foi o que ouviu nos relatos dos partisans sobreviventes que entrevistara e que sabiam de seu pai. Sob o codinome Paul, o pai teria infernizado a vida de patrulhas nazistas no Norte, com emboscadas. Ninguém sabe quem o entregou. Morreu numa troca de tiros, numa madrugada de 1942.

Quando soube, já no fim da guerra, Cécile teve raiva do pai. Ele não cumprira a promessa.

— E você, papá? — Helène fazia cara de choro na despedida.

— Eu vou logo depois, petit oiseau...

Nunca foi. Mas Helène também nunca o saberia.

Cécile sentou-se na mureta do rio, terminando o cigarro.

— A tante Hughette as espera em Lisboa, vocês vão com mamain e seus avós, pela Espanha.

— Eu não quero ir.

— Você vai, Cécile, não temos escolha. Tome, entre no trem com sua mãe e sua irmã.

— E o vovô e a vovó?

— Eles vão no outro, pela manhã. Agora vá.

O outro trem não partiu. Os alemães e a polícia do regime colaboracionista cercaram a estação naquela tarde, buscando impedir a fuga em massa de judeus franceses, familiares de membros da Resistência e outros inimigos do regime de Vichy. Era outubro de 1941 e alguns vizinhos os advertiram que judeus estavam sendo presos nas imediações da cidade e levados para campos em lugares distantes. Monsieur Leblanc, administrador de uma cidade vizinha, fora preso, acusado de enviar informações à resistência em Londres. O avô de Cécile trabalhara com ele até pouco tempo. O pai e a mãe tinham laços com o PCF, ela, professora de matemática, ele, engenheiro em uma fábrica, sindicalista. E havia o sobrenome. Todos sabiam. Já não poderiam ficar ali também.

O trem onde estava com a mãe e a irmã foi parado em uma estação fronteiriça. Todos deveriam desembarcar. Sentada em um banco mais afastado das duas, Cécile acabou ficando para trás, com as bolsas das três. Foram formadas três filas, separando homens, mulheres e crianças. Viu a mãe gritar ao ser separada de Helène, que chorava. Tentou avançar em socorro da mãe e da irmã, mas foi detida por mãos cinzentas, pesadas, que a conduziram com brutalidade de volta à fila das crianças. Assistiu a mãe sendo levada aos empurrões, os documentos já nas mãos do policial, enquanto gritava pelas filhas. Cécile tentou acenar para Helène, que não a via e tentava passar por baixo do cordão de isolamento, buscando aproximar-se da mãe. A confusão de mães e pais separados das crianças tomou grandes proporções.

Cécile apagou o cigarro pressionando-o contra a mureta de pedra. Deixou-se ficar ali, olhando o barco que passava sob a Pont des Arts. O barulho dos automóveis e a fumaça que produziam cheiravam como aquela madrugada fria em que viu a pequena Helène sendo carregada sem vida após o estrondo das armas dos soldados. A pequena Helène, colocada sobre outros corpos sem vida. Sem ação, viu a mãe, aos gritos, sendo conduzida com os outros presos para um vagão do trem. Um trem sem retorno. Essas imagens que ela havia borrado da memória hoje voltavam, nítidas, a partir da visão da menina e do avô no café. Chegara a hora de contá-las. Apertou o lápis na mão e abriu o caderno. Riscou o que já tinha feito e escreveu, logo abaixo: à memória da pequena Helène.


Pós-escrito: agradeço ao Cláudio Daniel pelas dicas para melhorar o texto.



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