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  • Foto do escritorRita Coitinho

Destinos Geminados

Atualizado: 10 de mar. de 2021


Para Franz Kafka


Reconheço que quando tomei conhecimento do desaparecimento do primogênito dos vizinhos senti certo alívio. Não tolerava o olhar viscoso que Gregor Sansa lançava sobre mim sempre que me surpreendia a estender roupas no varal dos fundos. Nossas casas eram geminadas e o pátio traseiro não oferecia qualquer privacidade. Por sorte, a profissão do rapaz o mantinha longe a maior parte do tempo. Mas eu temia que, cedo ou tarde, ele se decidisse a romper o silêncio e viesse a tentar algum tipo de aproximação. Nos últimos tempos meu asco pela figura de Gregor crescera a ponto de afastar-me de Grete, com quem nutrira uma amizade profunda desde a tenra infância.


Fato é que Gregor se foi. Inicialmente nos disseram que esteve doente, depois simplesmente que partira numa madrugada sem deixar qualquer carta ou endereço. Quando Grete decidiu contar-me o que houve, às vésperas da partida da família para outro endereço, não pude acreditar. Pensei que todos naquela casa haviam perdido o juízo e cheguei a formular a hipótese de que Gregor metera-se em algo monstruoso. Talvez mesmo um crime. Sim, aqueles modos silenciosos, aquele olhar infeliz, só podiam esconder uma alma cruel e capaz das maiores atrocidades. A família certamente estava a par e o escondia. De onde vieram os novos empregos, as roupas exuberantes de Grete? Havia um segredo, e certamente não era a história sobrenatural que me contara a irmã de Gregor, sob a condição de guardar silêncio. Tomei-lhes medo. E depois o mesmo asco que nutria pelo filho.


Acolhi com alegria a notícia de que vendiam a casa e mudavam-se. Inventei uma entrevista de emprego para o dia da partida, de modo que não precisei despedir-me. Não poderia olhá-los nos olhos depois de tudo o que desconfiei saber. E foi exatamente uma semana depois da mudança dos Sansa que o horror apresentou-se em minha casa.


Naquele dia, como fazia sempre, levantei-me antes do amanhecer para preparar o desjejum da família. Alguns minutos depois, minha mãe juntou-se a mim nos afazeres da cozinha. Dali a alguns minutos seria a vez de aparecerem o pai, que leria o jornal enquanto comia, e William, já vestido para o trabalho. Fui até a porta para apanhar o jornal e as garrafas de leite, deixadas ali todos os dias no mesmo horário. No vão da entrada, ouvi um ruído incomum vindo da janela do quarto de meu irmão, que ficava no andar de cima. Parecia que algo dava pancadas na janela e arranhava o chão, logo acima da minha cabeça. Voltei à cozinha, deixei o jornal sobre a mesa e coloquei o leite a ferver em uma panela. Subi as escadas pulando alguns degraus, sobressaltada. De fato, Will estava demorando mais do que de costume para descer para o café. Não sabia bem o que eu temia, mas o fato é que tremia ao me aproximar do quarto. Talvez eu já o soubesse, em meu íntimo. As imagens de Grete e de Gregor surgiram em meus pensamentos.


Em frente à porta do quarto, chamei por meu irmão. A resposta, uma espécie de grunhido gutural, encheu-me de pavor. Tentei abrir a porta, mas estava trancada. Pedi, agora aos gritos, que abrisse. Outra vez o estranho som ininteligível, as pancadas, e o arranhar do chão, semelhante ao barulho de uma vassoura de metal. Atraídos pela minha gritaria, meus pais surgiram no alto da escada. Só consegui dizer-lhes que William parecia estar doente e que era preciso, era urgente, abrir a porta. Minha mãe bateu, pedindo-lhe que abrisse. Novamente as pancadas, os barulhos de vassoura e o som estranho. Agora chiava, era quase um zumbido muito forte. Algumas pancadas na porta, a maçaneta moveu-se, mas a chave não foi girada. Alguns minutos se passaram, não sei dizer quantos. Recordo-me apenas que meu pai surgiu diante de nós com sua caixa de ferramentas e, sem dizer palavra, pôs-se a desmontar a fechadura, enquanto um odor forte de leite queimado e fumaça tomava conta da casa. Lembrei-me da panela no fogo e corri para a cozinha, a fim de evitar um desastre.


Enquanto acabava de apagar as chamas que se espalhavam pelos panos de prato que estavam próximos do fogão, ouvi o grito de horror de minha mãe. Subi correndo e a encontrei desfalecida, ao lado da porta do dormitório de William. Meu pai estava diante da entrada de pé, petrificado. Apenas balbuciava o nome do filho. Quando olhei para dentro do quarto, o que vi me fez querer fugir dali. Um enorme besouro procurava desvencilhar-se das roupas rasgadas de meu irmão, enquanto debatia-se contra a vidraça, como se quisesse sair voando. Talvez tenha sido o resto de humanidade que vi em seu rosto de inseto que me deu forças para entrar no cômodo. Puxei como pude o restante das vestes que o atormentavam e, por fim, abri a janela. Sem titubear, o besouro gigante que um dia fora meu irmão lançou-se para fora, em um voo sem regresso.


Meus pais quiseram seguir o exemplo dos Sansa e vender a casa. Devia ser encosto, diziam. Fomos viver num bairro distante, numa casa um pouco maior, com um grande quintal na frente. Passei a cultivar flores para vender às floriculturas e desenvolvi uma certa predileção por joaninhas e besouros. Gostava de vê-los no jardim e passei e escolher aquelas flores que atraíam mais insetos. Passei o resto de meus dias aguardando, secretamente, a visita de um besouro grande. Eu saberia que era William pois, em meio à comoção, esquecera-me de tirar o pé da meia branca que estava calçada em uma das suas patas traseiras.


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