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  • Foto do escritorRita Coitinho

Alma que voa


Decidiu subir no balão. O medo de altura manifestava-se em seu estômago enquanto o guia explicava-lhe o que era preciso fazer. Aquele era um balão de treinamento, estaria preso em uma longa corda, que não se preocupasse.

Após aprender a manejar as cordas para o a vai e vem, a válvula para murchar e inflar, sentiu que poderia até gostar de estar ali. Então o balão subiu. Enquanto ganhava altura, Sílvia tremia. Sentiu vontade de pedir para descer. Então sentou-se no assoalho do cesto e ficou esperando para ver o que ia acontecer. De repente, a calmaria. O guia parara de soltar corda e o balão ficou suspenso e quase imóvel naquele dia claro e sem vento. Teve então coragem de ficar de pé e observar. Sentiu no rosto o ar frio das alturas, a imensidão do céu azul e sem nuvens do outono. De um lado via as casas e as ruas da cidade, tão pequenas, e de outro somente a imensidão do mar, que se estendia até o horizonte formando com o céu um só elemento. O balanço foi pouco a pouco deixando de incomodá-la. Sentiu-se confortável e se deixou ficar ali, sem preocupar-se com o cordeamento do balão. Foi interrompida pelo movimento de retorno, a corda sendo puxada gentilmente. Seu tempo de aventura, comprado por quatrocentos reais a hora, terminara. Foi quando Sílvia entendeu que pela primeira vez meditara: estivera em silêncio e sem qualquer pensamento, a mente completamente pausada por um longo tempo, como nunca lhe ocorrera em mais de dez anos de ioga.

Ao descer do cesto, sentiu-se desapontada. Não queria mais ter os pés no asfalto. O ar pesado do nível do mar era-lhe agora insuportável. Gastara bem os quatrocentos reais da raspadinha, mas agora dava-se conta de que sua vida nunca seria satisfatória com os pés no chão. O que faria?

O salário de professora de gramática não era nunca suficiente para fechar o mês. Como poderia salvar dinheiro para comprar um balão e voar para longe? Se tivesse um balão, viveria voando, descendo apenas para passar a noite. Nunca mais o barulho dos carros, os saltos da vizinha do andar de cima, o choro das crianças do apartamento ao lado, o bom-dia obrigatório ao porteiro e ao milico aposentado com seu cachorro shnauzer que parecia fazer plantão no jardim do edifício. Libertar-se dos adolescentes da escola, daquela falta de interesse irritante, o cheiro de suor da quarta aula, quando os alunos voltavam agitados do recreio. Nunca mais a sineta da mudança de horários, nunca mais os conselhos de classe e as lições de moral da orientadora educacional, a mulher que nada sabia mas tinha conselhos a distribuir; adeus ao ponto de ônibus e às poças d’água nos intermináveis dias de chuva. Nunca mais sentir calor. Mas como conseguir um balão?

Nos meses que se seguiram, Sílvia agiu como um autômato. Dava aulas como se gravasse vídeos, sem perceber a presença dos estudantes. Ia e voltava para casa com pressa e consumia todo o seu tempo livre com aulas e vídeos na internet sobre voos de balão. Às sextas telefonava para os seus pais, que estranharam a mudança de comportamento da filha, sempre tão centrada e dedicada aos seus alunos. Ela já não contava histórias da escola, apenas relatava a rotina, perguntava-lhes sobre a saúde e despedia-se secamente.

O namoro com Diego, que já não ia bem, terminou. Ele não entendeu muito bem o que Sílvia quis dizer quando tentou lhe explicar que estava decidida a não desperdiçar mais nem um minuto de sua vida e nem mais um centavo com coisas que não a levassem às alturas. Ela andava mesmo muito estranha, pensou o rapaz. “Melhor terminar mesmo”.

Sílvia emagrecia a olhos vistos, pois cortara uma das refeições para economizar para o seu grande objetivo. Sua amiga Luísa preocupava-se com a aparência doentia de Sílvia, que apenas dizia que provavelmente estava emagrecendo porque perdera o apetite. Seus belos olhos castanhos afundavam-se nas órbitas. Os negros cabelos cacheados estavam mais ralos e fracos e foi preciso cortá-los. Mas ela não estava preocupada com isso. Voar era o único assunto que lhe interessava. Tentou explicar para Luísa que não estava doente, mas que tinha uma nova meta. Que estudava sobre balonismo nas madrugadas e que provavelmente o pouco sono era o responsável por sua falta de apetite. Luísa, alarmada, imaginou que a amiga estivesse depressiva e telefonou para os seus pais. O casal veio a pretexto de uma visita, durante a qual tentaram por todas as formas entender o que se passava com a filha, antes tão comunicativa e agora tão distante. Animava-se apenas quando falava de balonismo e esteve radiante quando foram juntos à praia observar os balões que voavam em um dia calmo de inverno.

Os pais de Sílvia sentiam que a filha não estava com eles. Fisicamente sim, mas era como se sua alma estive ausente, talvez flutuando com os balões coloridos que pintavam o céu litorâneo nos dias de vento favorável. Ofereceram-lhe, então, um auxílio. Presentear-lhe-iam com uma excursão para local onde pudesse ter aulas do seu esporte favorito. Foi assim que um ano depois da primeira aventura nas alturas, Sílvia juntou suas parcas economias e o dinheiro recebido como presente e gastou em um curso de balonismo na Turquia. Preocupados, os dois idosos ofereceram-se para acompanhar a filha, que aceitou com um uma resposta protocolar. Tanto fazia, em breve estaria voando sobre a Capadócia.

Para sua imensa decepção, os cursos eram em grupos. Sílvia não poderia pilotar seu próprio balão, não até concluir o complexo treinamento. Resignada, ia todos os dias para o campo no horário combinado e empenhava-se para ser uma aprendiz de destaque. Aborrecia-se nos dias de chuva e ventos, sem paciência de permanecer no hotel.

Faltavam apenas dois dias para o fim da viagem. Naquele dia, Sílvia levantou-se às 4h e saiu do hotel sem o café da manhã. Às 6h, quando o instrutor chegou no campo, encontrou-a sentada no portão de entrada e a convidou a ajudá-lo com os preparativos. Feliz com o convite, Sílvia irradiava entusiasmo, o que encorajou o instrutor a permitir-lhe um voo solo. “Você foi a melhor aluna do nosso curso, Sílvia, hoje vai poder voar sozinha”. Ela não cabia em si de contentamento. Telefonou para os pais, convidando-os a assistir seu momento de glória. Às 8h ela obteve a autorização para subir seu balão, após ouvir instruções e receber um rádio, que deveria permanecer ligado para eventuais instruções.

Era um enorme balão multicolorido, composto de listras que se alternavam entre o amarelo, o laranja, o vermelho, o verde e o azul. O dia estava perfeito: um céu azul radiante, sol ameno, brisa leve. Enquanto o balão subia, Sílvia olhava a paisagem branca da Capadócia que se estendia por vários quilômetros. O contraste daquele solo calcáreo com o azul do céu era certamente a coisa mais bela que ela já tinha visto. Com a cabeça completamente vazia de pensamentos, Sílvia via apenas as cores do balão, do céu e da planície, na medida em que as pessoas no campo de balonismo se tornavam tão pequenas que já não podiam ser distinguidas. Eram pequenos pontos. Pontos com os quais não tinha qualquer semelhança. Ela não fazia parte daquele mundo terreno, seu lugar era o ar.

Um pássaro interrompeu seu silêncio mental e então ela sorriu: “sou um pássaro”. O vento, no entanto, começava a ficar mais forte e vinha um ruído do rádio. Era o instrutor determinando que voltasse. Mas Sílvia não voltaria. Pertencia ao céu. A cor azul. O balão vibrante. O solo branco ao qual pertenciam os outros, os terrestres, os que não podem voar. O rádio não parava de fazer ruídos, “volte, dona Sílvia, a senhora corre perigo”. Ela riu. Inicialmente um sorriso, que deu lugar a gargalhadas. Sentia que o balão ganhava velocidade e pensou que podia ver a curvatura da Terra, tamanha a altura que atingia.

A temperatura estava já muito baixa e a água no cantil formava pequenos cristais de gelo. A respiração ficava um pouco difícil, dolorida. Mas Sílvia estava feliz. O céu azul. O colorido. E agora, ah…. Agora posso observar o pôr-do-sol. O alaranjado que se sobrepunha ao azul arrancava-lhe lágrimas que pareciam congelar. Começou a sentir-se fraca, uma sonolência agradável. “Que fiquem lá embaixo”, pensou, arremessando o rádio. Ao longe pôde distinguir um helicóptero. Adormeceu feliz.


(Orinalmente publicado em maio de 2022 em https://prensa.li/@rita.coitinho/alma-que-voa/)

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