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  • Foto do escritorRita Coitinho

A Morte de Tânia Radek


Há um grupo de insetos chamados efemerópteros. Estão presentes em todo o planeta (exceto na Antártida), tendo uma vida aquática, na fase larval, e um tempo de vida de cerca de vinte e quatro horas fora da água, momento em que, armados de asas transparentes, encontram um parceiro e deixam seus ovos para a continuidade da espécie. Uma existência efêmera, portanto: daí o nome.

Comparada à vida desses pequenos insetos, a existência humana é longa. Esta, no entanto, frente à idade das estrelas, não passa de um raio de luz. Mas há vidas humanas cuja duração é suficiente para a experimentação de um número satisfatório de situações. Alguns indivíduos são capazes de prolongar sua existência além da vida, por força de seus feitos artísticos, políticos, científicos ou esportivos. A maioria dos seres humanos, porém, sequer tem a chance de empenhar-se na empresa da imortalidade da memória, pois suas existências são subsumidas no turbilhão das engrenagens sociais e comem, dormem, despertam, amam e caminham conforme os usos de sua época ou de acordo com os usos que a época lhes destina. Essa é, aliás, a regra. Humanos são também efemerópteros, empurrados pelo ritmo da natureza e das forças sociais, do nascimento até a morte.

Assim viveu e morreu Tânia Radek. Uma existência efêmera e insignificante, como tantas outras e como é a desta que escreve. Dela tenho notícias não por sua obra ou por algo que a destaque em meio à revoada de seres humanos que vaga pelo planeta em nossos dias, mas porque nossas existências aproximaram-se por essas coincidências que se atravessam em nosso caminho e que moldam, sem que tenhamos condições de interferir, o fluxo de nossas vidas.

Tânia foi, por mais de dez anos, minha colega de sala na repartição pública em que trabalhávamos. Convivemos diariamente, descontados os sábados, domingos, feriados e períodos de férias. Compartilhávamos o vidro de biscoitos, a conta do pó de café e comentários superficiais sobre os acontecimentos cotidianos e o trabalho. Nessa convivência diária eu soube que ela não gostava de lugares fechados. Preferia sempre subir escadas, mesmo que fossem muitos os lances, a entrar em um elevador. Nunca viajava de avião. Suponho que na solidão do lar (vivia só, com seu gato siamês) mantivesse um abajur aceso no quarto para diluir a escuridão. Embora pareça irrelevante, essa informação acerca da claustrofobia de Tânia será importante para o desfecho de sua breve existência. Antes, é preciso rememorar os acontecimentos provocados por gente do tipo que teima em deixar marcas, habitar livros de história e dominar nossas memórias. Alguns o fazem por seu talento, ousadia ou brilhantismo. Outros não têm nada a oferecer, mas insistem em ser lembrados, nem que seja pelo horror.

Aconteceu que algum tipo misterioso de deterioração cerebral se apossou de um vasto contingente de homens e mulheres em nosso país. Não sou estudiosa dos fenômenos da mente, mas estou convencida de que se tratou de uma patologia coletiva esse fervor que, de um ano para o outro, levou a uma tal situação de frenesi político que setenta e um porcento dos eleitores votou em um candidato bizarro, vil e mal-vestido, com claras intenções autoritárias e cercado de religiosos fanáticos e seguidores violentos. O novo governo declarava-se “adversário das luzes” pois, de acordo com o credo que se espalhava, toda visão que não seja aquela que é estritamente essencial não passa de uma ilusão que turva a moral e afasta os homens de Deus.

A campanha difamatória que se seguiu à eleição levou ao abandono completo das universidades e centros de pesquisa. Os poucos cientistas renitentes foram perseguidos pela massa em transe. Os museus foram apinhados de obras sacras, e a iluminação desses espaços passou a ser feita apenas com fraca luz de velas. No mundo das artes, o medievo ascendeu como tendência estética irresistível. Isso porque o novo credo afirmava que somente o Criador era digno de representação pictórica, teatral e cinematográfica. Os teatros e cinemas foram perdendo público, restando alguns poucos com apresentações de peças sobre o Juízo Final, a Arca de Noé e outras histórias bíblicas. Em pouco mais de cinco anos do novo Governo Supremo, estavam instituídas as fogueiras para livros, obras de arte e indivíduos hereges. A palavra “eleições” foi banida dos dicionários e tribunais televisionados ocupados por religiosos animavam o povo com julgamentos em tempo real que quase sempre terminavam com sentença condenatória máxima: a morte. A fusão da Igreja Católica com as diversas igrejas cristãs protestantes e seitas menores foi determinada pela nova constituição. A carta magna instituía um quarto poder: o da cúpula religiosa.

A todas essas, aqui do meu pequeno e insignificante mundo burocrático, percebi o desaparecimento de alguns colegas da repartição. O primeiro a desaparecer foi o Oliveira. Ele era nosso representante no sindicato e dizem que escreveu um memorando aos superiores protestando contra as novas atribuições. Depois foi a Maria Antônia, do setor de protocolo. Ouvi dizer que era atriz e que nas noites encenava peças de conteúdo agnóstico em um teatro alternativo. Tânia e eu seguíamos nossas vidas, adaptávamo-nos aos novos tempos e acatávamos as ordens. Com isso nunca éramos notadas. De fato, cumpríamos à risca o que nos aconselhara o Schultz no nosso primeiro dia de trabalho: “no serviço público, o negócio é não se destacar. Nem pelo mal, nem pelo bem. Se você trabalha mal, se destaca por ser um servidor ruim, e as pessoas falam de você. Se você tem muitas iniciativas, ao contrário, atrai para si muitas responsabilidades, mais do que é pago para fazer. Também desperta a inveja... então façam o trabalho de vocês, sem procurar aparecer”. Foi dessa forma que fomos levando nossas vidas, como duas observadoras do que se passava do lado de fora, resignadas com nossos afazeres. Sentíamo-nos seguras, pois éramos invisíveis.

No oitavo ano do novo regime as coisas entraram em um novo patamar. Novos decretos tratavam das vestimentas da população. Estavam proibidas as roupas curtas, as blusas deveriam ter gola até a altura do queixo, as mangas deviam abotoar-se nos punhos, as calças deveriam ser largas e compridas. Os sapatos, fechados e sóbrios. Estavam banidas as cores heréticas: vermelho, amarelo, rosa, laranja e violeta. Branco somente para os bebês e pessoal médico em serviço. Azul, somente no tom marinho para certos tipos de religiosos e policiais. Verde-Oliva para as forças armadas. O fervor popular favorável às novas medidas morais levou ao incêndio das coleções de moda primavera-verão. Grandes fogueiras espalharam-se pelas cidades e cerca de cinquenta modistas inconformados foram condenados à prisão.

Pela primeira vez em muitos anos ouvi uma queixa de minha colega de sala: sentia-se sufocada com aquelas golas. “Sou claustrofóbica, você sabe”. Tânia começou a definhar. Já não tocava nos biscoitos na hora do café e sua magreza era tanta que praticamente desaparecia sob as vestes obrigatórias. No décimo ano, veio o decreto fatal. Para comemorar uma década de combate vitorioso às luzes, o governo decretava o aumento obrigatório das golas: deveriam cobrir completamente o rosto, até a testa. Somente a imagem da face do Criador era digna de contemplação. Era permitida apenas uma leve transparência na área dos olhos e todos deveriam adotar vestes pretas, salvo os grupos previstos em lei.

No dia marcado para a entrada em vigor da obrigatoriedade do novo traje, Tânia não apareceu para o trabalho. Preocupei-me, porque sabia que vivia só. Saí à sua procura sem sucesso e somente depois de alguns dias apurei algumas informações. Tânia Radek foi vista saindo de seu apartamento às 7:30 da manhã, como sempre. As câmeras de vigilância das ruas flagraram sua corrida em meio à multidão de golas pretas. Seus movimentos evidenciavam pavor. Desviava de toda gente e, aos gritos, tomada pelo pânico, atravessou uma avenida movimentada, causando um engavetamento de carros. Fecho os olhos e consigo imaginar o pavor de Tânia. Vejo a multidão de golas à sua volta, seres sem rosto, os murmúrios, o zunir dos carros. Ela gritou, sei que sim, posso ouvi-la. Desfaleceu em meio à confusão do trânsito. Foi recolhida por uma viatura, já sem vida, e descartada como um inseto insignificante.

Adotei o seu velho gato. Ele está aqui ao meu lado enquanto redijo essa pequena memória, pois decidi me insurgir contra o esquecimento. A insignificância não manteve Tânia a salvo da escuridão. Nós duas nos julgávamos seguras porque não chamávamos atenção, mas ninguém está seguro quando o horror se alastra. Todos os dias perecem outras Tânias, como efemerópteros surpreendidos pela chuva. O regime não as teme, tampouco as considera. Somos milhões de insetos a voar, quem se importa com nossas existências singulares? Ninguém contabiliza nossas vidas. Escrevo como forma de resistência, recuso-me a desaparecer sem deixar marcas, sem recordar de Tânia, cuja morte ressignificou minha vida.

Pouco a pouco a adesão do povo ao Governo Supremo parece minguar. As marchas convocadas pelo presidente têm menos adeptos a cada dia. Há divergências entre os próprios religiosos, obrigados a homogeneizar seus dogmas e sua liturgia. Há fome, e com ela a insatisfação ganha vulto. As pessoas temem a repressão e mantém silêncio, porém algo se move nas profundezas. Resisto. Por mim, por ela, pelos que virão depois de nós. Tânia viverá em minha memória. Haverá luzes no futuro.


(Originalmente publicado na Revista Zunai, dezembro de 2021. https://www.revistazunai.org/post/a-morte-de-t%C3%A2nia-radek-por-rita-coitinho)

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