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  • Foto do escritorRita Coitinho

A Febre




Quando a rabeta de Josué encostou na margem do rio Tapajós, perto de uma comunidade de produtores de açaí, a alguns quilômetros de um descampado recém-aberto pelos garimpeiros, contavam-se quatrocentos e noventa anos desde que Atahualpa tentara comprar sua vida com objetos de ouro e histórias sobre rotas para o El Dorado. Fazia pouco tempo que o inca tivera contato com aquela estranha qualidade de homens, mas já era capaz de entender a cobiça por ouro. Não conhecia, porém, a completa ausência de honra daquele povo de saqueadores. De fato Pizarro, o chefe dos bandos espanhóis, aceitou os objetos de ouro e as rotas para o lago Guatavita, mas não cumpriu o acordo: mandou enforcar Atahualpa. Eram maus presságios: quando a loucura do ouro se apossa dos homens, palavras são como poeira ao vento.

El Dorado, o sonho obsessivo da cidade de ouro, animou a organização das grandes expedições lideradas por saqueadores e aventureiros como Felipe de Hutten, Francisco Pizarro, Pedro de Ursúa e Sir Walter Raleigh, que ladearam as margens dos afluentes do Amazonas, escavaram rios e lagos, subiram montanhas, assassinaram habitantes locais e encontraram a morte das formas mais variadas. Um pouco mais para o sudeste, expedições tão absurdas quanto perigosas, lideradas por homens vindos de Portugal, acabaram por descobrir o metal e a euforia do ouro fez de Minas Gerais o formigueiro humano que por séculos escavou a terra, escravizou seres humanos, transformou rios em lamaçais e fez desaparecer montanhas.

Algumas centenas de anos antes, enquanto preparavam os rituais de reconhecimento do novo líder – que seria coberto de resina e pó dourado para então flutuar na jangada repleta de oferendas nas águas mansas do lago Guatavita –, nenhum daqueles homens e mulheres poderia imaginar que, no ano 1580, um tal Antonio de Sepúlveda teria a ideia de cortar uma fatia da borda da cratera vulcânica que acomodava o lago, a fim de secar suas águas e recolher o tesouro ali ofertado, por séculos, às divindades do povo muisca. Ficariam espantados, certamente, se pudessem saber que, em 1909, uma empresa britânica retomaria a louca ideia de drenar o Guatavita, escavando um túnel abaixo dele, o que causaria o desabamento do lago e um imenso derramamento de lama. Tudo isso por causa das estatuetas de ouro que os muiscas ofereciam aos seus deuses. Ouro. Esse metal de estranho brilho dourado que desperta, em certos tipos humanos, uma espécie de febre.

Josué nascera no Eldorado. Mas não o dos sonhos febris e dos mitos da época da infâmia – também chamada, pelos espanhóis e portugueses, de “conquista”. Veio ao mundo em Eldorado dos Carajás, no Pará, na última década do século XX. Era o filho mais novo de um catarinense que fora atraído pelo sonho de riqueza da Serra Pelada e de uma goiana que fora vendida pelos pais e levada para a região aos dezesseis anos, para trabalhar numa casa noturna em Marabá. A casa era mantida para divertir os garimpeiros, que lá deixavam parte significativa da renda. Apaixonado, o pai de Josué pagou dez gramas de ouro pela liberdade da moça e foi com ela para o povoado que depois ganharia o nome da lenda. Morreu assassinado, poucos anos depois, numa disputa por uma área de mineração, e dona Inês criou sozinha os quatro filhos, sem perder uma única oportunidade de dizer aos meninos que não deviam seguir os passos do pai. “Ouro é ilusão, é um tipo de doença, uma febre desgraçada que acaba com vida da gente.”

Mas Josué não queria ser como seus irmãos mais velhos, todos assalariados. Trabalhar a vida inteira para não ser ninguém, ser ignorado na rua, tratado a pontapés, como se não fosse gente? Não, ele não. Ele seria rico e poderoso, pois acharia ouro no Tapajós, sabia que estavam tirando ouro por lá. Juntou os parcos recursos que tinha, vendeu a motocicleta com que fazia entregas para poder comprar uma rabeta, uma bateia e algumas provisões, deu um beijo na face molhada de lágrimas da inconsolável dona Inês e partiu para Santarém, confiante de que faria fortuna em poucos anos e voltaria para buscar a mãe. Aí sim: ela viveria numa casa bonita, sem nunca mais lavar roupas para fora.

Centenas de homens afluíam diariamente para os garimpos na região do Tapajós, atraídos pelo sonho dourado do ouro depois de amargarem o desemprego, o subemprego ou terem sido empurrados para fora de suas terras pela fome e pelos grileiros. As áreas de garimpo pululavam de gente e expandiam-se, junto com outros negócios periféricos, como a venda da madeira cortada para abrir a área, as casas noturnas, os agrupamentos de pistoleiros para segurança dos pequenos senhores feudais do garimpo, os hotéis e os restaurantes nos povoados lindeiros. Em meio à lama, centenas de homens bateavam em busca do metal dourado. Na disputa por ouro, muitos ficavam frustrados e saíam a faiscar ouro sozinhos pelos igarapés.

Encontrar sozinho um local para batear, que já não tivesse um dono que fazia valer seu direito à maior parte da produção por meio de ameaças e pistoleiros, era mais difícil do que Josué imaginara. Um sujeito miúdo, um pouco tímido, nada agressivo. Acabaria peão de outro garimpeiro. E, de fato, acabou aceitando juntar-se a um grupo que trabalhava para o coronel Passarinho. Como ele tinha sua própria canoa motorizada, ficou sendo uma espécie de imediato do chefe do grupo, que por sua vez era o testa de ferro do oficial militar. Este, homem importante, nunca aparecia no local, apenas dava as ordens e exigia os pagamentos em ouro. Josué sentiu-se prestigiado e gostou disso. As coisas parecia que iam dar certo, afinal. Com o passar do tempo, o eldoradense ganhou modos de chefe. Tinha uma arma e não hesitou em usá-la quando, certa noite, um homem tentou pegar o saco de tecido onde guardava o ouro que escondia do imediato do coronel. “Não vou ter o mesmo fim do meu pai”, pensou eufórico. Mandava em um pequeno grupo de homens e não tinha receio de dar as ordens. O objetivo final – enriquecer com ouro – era precioso demais para que fosse prejudicado por um fulano qualquer, por alguém sem importância. O ouro valia mais.


***


No domingo, a comunidade acordou com o rio tomado de uma cor barrenta. Havia alguns peixes mortos na margem, o que atraíra uma certa quantidade de urubus. O padre Antônio ficou alarmado: isso era coisa causada por atividade de garimpo, e não devia ser longe dali. Reuniram a comunidade na escola e, por sugestão do padre, decidiram que iam pedir ajuda às autoridades e fazer uma denúncia na imprensa. Garimpo era um perigo, tanto por causa do mercúrio quanto pela violência que sempre vinha junto. Mas o Quinzinho, rapazote do vilarejo que andava sonhando com ouro desde que conhecera alguns garimpeiros, contou para os homens de Josué no dia seguinte, quando eles foram até a vila comprar mantimentos.

Preocupado, Josué mandou uma mensagem de áudio para o chefe, que telefonou para o coronel, que disse: “Essa vila tem que desaparecer do mapa, e é logo”. Josué quis se recusar. “Isso vai me dar problema.” Mas o chefe disse que não se preocupasse: o militar era influente no governo, não aconteceria nada com eles. Palavra do coronel.

O Quinzinho deu a informação de que no outro dia de manhã ia ter uma reunião da cooperativa na escola, e que todos estariam lá reunidos. Ia ser fácil dar um susto neles, como o Josué tinha dito. “É só um susto, Quinzinho, é para eles não mexerem com a gente. Fica na sua que depois vai poder ir para o garimpo também. Dou minha palavra.” O rapaz acreditou no garimpeiro e recebeu um grama de ouro, o que fez seu coração acelerar. Dali a um tempo, cheio de ouro, compraria uma casa linda em Santarém e Amanda deixaria Ronaldo por ele...


***


Enquanto pescava no igarapé, Ronaldo não tinha outro pensamento senão Amanda. A moça tinha dito que sim, ia com ele. Agora era fazer a casinha deles. A cooperativa estava indo bem, tinham muitos clientes para o açaí Tapajós e eles teriam uma vida boa. Ainda mais que, fazia já uns anos, tinha chegado escola na comunidade, diferente de quando ele era criança. Eles iam poder ter uns três, quatro filhos que iam estudar e ajudar na parte deles do açaí. Ia ser bom. Resolveu então fazer uma coisa louca. Ia faltar à reunião da cooperativa e ia descer mais, até uma parte mais funda, ia pegar um pirarucu que ele sabia que tinha. Daria uma festa para todo mundo! Seria uma surpresa tão boa que Amanda ia ficar contente. Ah, se ia... Então ele desceu o curso do rio, silencioso.

Pelo outro lado, a canoa de Josué encostava perto da vila dos cooperados. Desceu armado com mais quatro homens e foi até a escola, onde acontecia a reunião da cooperativa. Quinzinho aguardava pelos garimpeiros, na expectativa de ver como fariam para intimidar a comunidade e já se imaginava indo embora com eles. Preparara até a mochila com algumas roupas e comprara uma bateia. Mas a promessa de Josué, homem do ouro, não valia nada. Tal como o inca Atahualpa constatou a caminho do enforcamento, Quinzinho percebeu horrorizado, quando a bala perfurava o seu abdômen, que acreditara num homem sem honra. O vilarejo foi arrasado e incendiado.

Quando Ronaldo retornou, sem ter encontrado o pirarucu, mas com uma boa quantidade de peixes, encontrou um cenário de horror. Desarmado, sozinho, cheio de dor, deixou-se cair, ficando ali imóvel, soluçando, por algumas horas. Depois de pensar um pouco, encontrou forças para fazer um vídeo com o telefone celular, algumas fotos e dirigiu-se à canoa. Foi-se, rio abaixo.


***


Duas semanas depois, com as fotos da chacina estampadas na internet e nos veículos de imprensa, o acontecimento no Tapajós ganhou mundo. Quando o Vaticano aderiu à campanha de pressão sobre as autoridades brasileiras – o padre Antônio era um missionário católico –, a polícia chegou àquela área do Tapajós para levar Josué e seus homens. A investigação foi concluída e, nos autos, consta que os homens do eldoradense agiram sozinhos, em razão de uma disputa com os membros da aldeia por causa do garimpo. Não havia mandantes, somente um grupo de garimpeiros, desmantelado com sucesso pela polícia. Nenhum deles sobreviveu ao presídio, local onde aguardavam, ansiosos, a intervenção do coronel, que nunca veio.

Pelos anos seguintes, o fluxo do ouro seguiu. Pelas mãos de outros Josués, dispostos a sujarem-se de lama e sangue, carregado no fundo de outras tantas canoas, à custa de vilas de ribeirinhos e reservas indígenas, das vidas de muitas Amandas, Padres Antônios e Quinzinhos, até chegar às mãos do coronel e de outros poderosos, perfumados, bem-vestidos e bem alimentados. Sempre haveria quem fizesse o trabalho para eles. A febre do ouro – mito da riqueza ao alcance da mão, adormecida no solo e no leito dos rios, à espera de quem tiver coragem de ir buscá-la – é mesmo muito contagiosa.


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Publicado originalmente na antologia organizada por José Mauro da Costa, "Mitologia", que conta com 26 autores. A antologia é parte do projeto De graça da Praça, que está em sua vigésima edição, distribuindo milhares de exemplares gratutitamente. Quer conhecer o projeto? Visite: http://livrodegracanapraca.blogspot.com/

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