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  • Foto do escritorRita Coitinho

Para a pequena enciclopédia das misérias humanas

Atualizado: 12 de jan. de 2021

(É possível que esta enciclopédia nunca seja concluída, pois são tantas as nossas misérias e tão capaz a humanidade de produzir novas que o mais provável é que eu nunca chegue ao fim desta lista.)


1 - A miséria dos desterrados


Aeroporto internacional de Guarulhos, setembro de 2018 - sala de embarque.

Era umas 23h quando vi chegar o homem pequeno e esquálido, amarelado, com olhar assustado e faminto. Ao meu lado a confusão de idiomas me fazia pensar no mito bíblico da torre de babel. Uns homens grandes, fortes, falando em árabe entre si, gente falando inglês, espanhol, francês e uma língua que eu não soube identificar. Meu vôo não tardaria muito mais. Eu estava cansada de ler e de esperar. Distraía-me tentando ouvir as conversas em volta. O sujeitinho assustado ficou sendo o meu assunto.

Veio acompanhado de uma comissária de bordo, muito educada, que lhe ofereceu o assento falando inglês. Ele confirmava com a cabeça, com ar de que não entendia muito bem. A comissária pediu, olhando em volta, se alguém ali conseguiria comunicar-se com o homem. Os árabes iniciaram a conversa, ele balbuciou algumas respostas. Eles se voltaram para a comissária e, em bom português-paulistano, disseram que o homem era paquistanês e que seu árabe era muito ruim, que estava difícil de entender. Mas que ele queria seguir viagem para o Peru. A comissária disse que voltava logo e que por favor dissessem ao homem que esperasse ali.

Voltou com um segurança. O paquistanês não estava autorizado a seguir viajem para o Peru, não tinha um visto de entrada. Também não poderia ficar em São Paulo sem um visto. Deveria embarcar no próximo voo, de volta a Addis-Abeba (o meu). O homem reagiu quando isso foi explicado em inglês, apesar de ter negado que entendesse inglês no começo da conversa. Disse aos árabes que não queria ir. Que era perseguido. E que então queria ficar no Brasil. Pedia asilo político.

O segurança, desconcertado, disse aos paulistanos-árabes-meio-intépretes-voluntários que o posto da Polícia Federal estava fechado, só no outro dia. Ele não poderia sair daquela área do aeroporto. O homem disse que ficava ali. O segurança balançou a cabeça. Não pode, tem que ir pro avião. O homem reagiu. Timidamente, mas com firmeza. Disse, agora em mau inglês: quero asilo político. O segurança se foi em direção à equipe da companhia aérea e lá discutiram algo a respeito por algum tempo.

Os árabes-paulistanos perguntaram ao homem se tinha fome. Ele respondeu de um jeito que até eu entendi que não comia desde que saiu de Addis-Abeba (são pelo menos 12h de vôo de lá para cá). Mas que estava tudo bem. Um dos homens lhe comprou um lanche, estava claro que homem não tinha um tostão, não levava nada além das roupas largas que um dia já devem ter sido brancas e uma pequena sacola de pano amarela. Foi nessa hora que precisei embarcar, era já a última chamada. Fui embora arrastando minha mochila e pensando na miséria de um exílio ou migração forçada. Tornar-se de repente um estranho absoluto, uma pessoa incômoda que ninguém quer receber. Ser um refugiado - por qualquer razão - é certamente uma das grandes misérias da vida humana.











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