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  • Foto do escritorRita Coitinho

Colégio Católico

Atualizado: 10 de mar. de 2021




Ouvi de alguém, certa vez, que a melhor maneira de forjar um ateu é colocando-o a estudar em um colégio católico. Por certo não foi esse o motivo que impulsionou a escolha dos meus pais. Suas razões eram mais mundanas: o preço modesto da mensalidade da rígida escola de freiras que cabia, apertando-se aqui e ali, no orçamento da família. A escola, apesar da simplicidade, tinha boa fama. Fui matriculada lá aos seis anos, na turma da tia Eva.

Recebi com alegria o uniforme: jardineira azul e camiseta branca. Ganhei ainda um par de tênis azuis, que cheiravam bem, como chiclete. Fui bem recebida na turma, ganhei logo boas amigas e o afeto da professora. Tudo ia bem. Mas acontece que eu não sabia rezar a Ave Maria, recitada todas as manhãs, antes das oito. Murmurava a oração como podia, e com o tempo aprendi. Depois passei a recitar também o Pai Nosso, que era pai, mas era filho (como podia, não perguntei).

Com o passar do tempo e com as aulas de ensino religioso, aprendia também que havia algo a temer. Não só o me perder da minha mãe no supermercado, a mordida do cachorro do vizinho e a picada de cobra se eu botasse a mão no mato sem olhar antes. Não. Havia algo maior a ser temido. Algo misterioso e que, pior, estava me vendo. Ir ao banheiro tornou-se uma operação um pouco mais complicada. Será que tinha alguém olhando? E se hoje eu não comer a fruta do lanche e não contar para a mãe, ele vai ver? Eu, que já tinha superado o medo atroz que sentia do “burro”, que era a sombra projetada pela minha vaquinha de brinquedo na parede do quarto e fora meu maior pavor entre os dois e os três anos de idade. Eu, que já conseguia ver a Cuca na TV sem chorar e já até - até!! - dormia com a luz apagada, voltei a temer a escuridão.

E a vergonha de admitir? Iam rir de mim. Era só o que faltava, a Rita agora tem medo do escuro. Meu irmão não ia me deixar em paz. Passavam-se os anos e eu seguia apegada ao ritual do “boa noite”. O pai ou a mãe tinham que vir no quarto e apagar a luz. Era como se aquela passada de um deles por ali purificasse o ambiente dos maus espíritos que, eu tinha certeza, estavam escondidos. A minha coleguinha dizia, com toda aquela certeza que só a fé te dá, que as almas dos mortos continuavam entre nós, e que podiam entrar no nosso corpo. Ela contava, enquanto comíamos nossos lanches, toalhinha arrumada no banco do pátio da escola, sobre a lancheira, garrafinha com suco, fruta e biscoitos, que uma menina lá nos Ingleses fez a brincadeira do copo e depois morreu.

─ Morreu? ─ Eu me espantava.

─ É, morreu, ela virou o copo para ela, o espírito entrou nela, ela pegou a arma do pai e se deu um tiro.

O horror. Foi o ponto de virada, da paz para o desassossego. Deitada na cama para dormir, as costas precisavam ficar viradas para a parede, olhos fixos na porta. O lençol até o pescoço, nem um dedo para fora. Vontade de beber água? De fazer xixi? Nem pensar, daqui eu não saio, só se tiver mais alguém da casa por perto. E as bonecas? Também tinha a história das bonecas, que ganhavam vida ao anoitecer. O filme do brinquedo assassino, que eu não tinha permissão para assistir, mas nem precisava, pois na escola me contavam. Quem crê que tem alguém nos vendo, que tem espíritos num copo ou numa caneta, pode acreditar em bonecas possuídas por espíritos malignos. Na dúvida, criei mais um ritual de antes de dormir: guardar as bonecas num armário cujo defeito na porta tornava-o muito difícil de abrir. Bonecas não devem ter muita força, afinal. Mas havia as forças contra as quais eu não podia lutar.

─ O diabo, ele tem um monte de demoninhos que ajudam ele. Eles vem te buscar e te levam.

─ Como é que você sabe?

─ Eu aprendi na catequese. É verdade. O inferno tem fogo, e o diabo fica lá te machucando, te batendo, para sempre.

O Guilherme contava isso enquanto brincávamos de represar a água da nascente que tinha no sítio. Íamos cavando a nossa barragem e ele ia contando. Foi numa dessas tardes de conversas sobre o diabo que eu me recusei a entrar em casa sozinha depois que o meu amigo foi embora. Escurecia. O pai estava na horta, a mãe e o mano não estavam. A luz estava fraquinha, meia fase. Parecia coisa feita. Preferi os mosquitos, até o pai voltar.

─ Está com medo de entrar por causa da luz? Eu ouvi as bobagens que o Guilherme falou. Deixa de besteira, vai para dentro e toma o teu banho, que o pai já vai, só vou guardar a enxada

Eu fui. Mas fui porque fiquei com vergonha, que aliás é um jeito de a gente achar coragem.

Aos dez anos, na quarta-série, fui desmascarada por um menino chamado Daniel. Ele estava contando que sempre que sentia medo, chamava seu anjo da guarda. Eu quis saber como, e ele explicou que rezava a oração do santo anjo. Então eu não conhecia? “Não”, respondi sem saber o quanto isso revelava:

─ Tu não vais na catequese? ─ Ele quis saber espantado. Que não, respondi.

─ Mas vais fazer?

─ Não vou, lá em casa a gente não faz.

Ele contou para todos. Esperou a aula de religião para puxar o assunto. Tive que dizer, outra vez, que não, que não faço catequese. Uma loirinha miúda, que até era muito minha amiga, me olhou com desprezo e me informou, revirando os olhinhos, de que eu iria para o inferno.

Remoí a informação por uns dias. Não sem sentir medo. Mas com revolta. Então eu ia para o inferno e o meu colega não? Mas eu era boa aluna, ele fazia bagunça. Eu era boa com os bichos e com os colegas. Tinha colega que fazia fofoca, eu não fazia. Se deus não gostava de mim por causa de um curso bobo, aquilo não podia ser o certo. Venci a vergonha e comentei em casa, sem entrar em detalhes, que tinham dito isso na escola. O mano, que já era grande, disse que deus não existia. O pai aprovou. A mãe deu de ombros. É tudo besteira, filha.

Fiquei com a dúvida, mas fui perdendo um pouco do respeito com aquela encenação toda. O medo não ia embora, mas começava a me achar ridícula. Na sexta série, a confirmação da máxima relação entre colégio católico e ateísmo pôde enfim acontecer, graças à irrupção, em minha vida, de dona Marta, teóloga formada na PUC, cheia de entendimentos. De boa vontade, fiz em casa a lição recomendada: uma pesquisa sobre deus. Revirei a Enciclopédia Britannica Mirador Internacional, sobre deuses em várias culturas, de A a Z. Entreguei o caderno orgulhosa. Errado, ela anotou na lição.

─ Te dou nota seis pelo caderno.

─ Por quê, professora?

─ Deus é pai, filho e espírito santo, menina. É a santa trindade.

─ Amém! ─ disse, recolhendo o caderno com raiva.

Foi ali que perdi aquele arremedo de fé que o mistério e o hábito da oração obrigatória me incutiram nos anos de escola católica. Com ela, o medo também se dissipou. Podia, enfim, dormir despreocupada.


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